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Só e bem acompanhada (ordenar)





Cremilda e Rosilda permanecem algum tempo sentadas em silêncio até que Cremilda olha para amiga. Rosilda fala.
Resultado de imagem para separação desenho- Eu sei que você está quieta assim porque não quer parecer invasiva, bisbilhoteira etc.
- É...
- Já cansei de dizer que não vale isso entre a gente, até porque a gente lê o pensamento uma da outra. Pena que você é mulher, e eu sou hétera, senão seria meu marido ideal.
- Hum-hum, tá bom, então desistiu mesmo do casamento com Manolo.
- Desisti. Não fique com pena.
- Pena eu, que é isso! Parabéns!
- Sempre quis casar, você sabe, mas chega uma época da vida da gente que você não admite certas coisas.
- Tipo...
- No último jantar juntos, ele veio insinuando que eu podia largar meu emprego, trabalhar na farmácia com ele, que "isso de ir e voltar ao Rio todo dia atrapalha, que "quer coisa melhor que almoçar com a mulherzinha todos os dias, tirar uma sesta", entre outras coisas...?
- Xi!! Não está querendo pagar encargos sociais... O que você disse?
- Desmontei, mas fui curta e grossa: nem pensar!
- Essa é a Rosilda! E ele?
- Disse com jeitinho manso: calma, querida, nós vamos ter tempo para pensar a respeito.
- Hum... Sinal que ele não ia desistir do projeto tão cedo.
- Eu disse não, nós nem vamos pensar a esse respeito. Meu trabalho eu não largo!
- Absurdo, nos dias de hoje...e depois você ficar numa farmácia, cheirando a éter, não rola né?
- Aí ele ficou meio esquisito, me olhava com um sorriso meio irônico, fazendo agradinhos, com cara de "depois com jeitinho ela muda de idéia"...
- Sei como é. Conheço o tipo. O Boa se faz de vencido antes de ter vencido, quando quer muito uma coisa.
- Aí fomos prá nossas respectivas casas, e lá pela meia noite, dei um estalo tipo "sabe de uma coisa?" Liguei prá ele e terminei tudo.
- E a reação dele?
- Quê? Precisava ver! Nem aí , nem insistiu, nem nada, lamentou educadamente e, rapidinho, veio com aquela "amigos, então?"
- Esses homens... Acho que ele já estava percebendo que não ia dar certo.
- Claro, ia ser mais um contrato tipo"nós nos faremos companhia na velhice, certo?".
- Que bom, Rosilda, ainda bem, sem fossas, sem grilos...
- Continuo só, mas acho que até me vejo melhor só. Só e bem-acompanhada.
- Só e bem acompanhada, é isso aí.
- Se você prestar atenção, você nunca está só. Mesmo que esteja fisicamente só.
- Não vem com aquela história de está com Deus e tal...
- Não só.Veja bem, você quer estar no mundo, liga a tv, tem gente. Ou liga o computador, tem gente.
Desce o prédio, tem gente, vai à rua, tem gente, ao trabalho...Só no banheiro que não tem. 
- Mas o amor  como é que fica?
- O amor? Claro o amor  faz falta, um abraço, um aperto ficam pro  aniversário, pro Natal, os amigos,  sobrinhos. Afinal o amor afinal você dedica a todos.
-  Mas isso que você diz é a pura verdade, eu mesma com marido e filhos,  quantas vezes me vejo e bem-acompanhada por mim mesma.  E sabe que até gosto?
- Isso não quer dizer que a gente tem que virar uma carmelita.
- Não! Temos que cada vez estar no mundo, virtualmente ou em pessoa.
- Mesmo assim tenho que pensar melhor minhas perspectivas em relação aos homens...
- Rápido, heim, desculpe, aí.
- Eu sei...  sabe, com toda sinceridade, isso já não me assusta nem um pouco.
- Com certeza, há muito mais coisas nesse mundo para nos assustar...
- E como!

Dá um tempo, Dona Morte

- O que está matutando tanto hoje, Cremilda?
- Fazendo as contas. com boa saúde, em circunstâncias normais, não tenho muito tempo pela frente.
- Não temos, mas qual a surpresa, ganhando uns 20,25 anos, já estamos no lucro.
- Será que vou embora sem ter feito e entendido coisas que queria?
- Hum ...não fazer coisas,  tudo bem, mas entender...que diferença faz alguém morrer sem entender algo? Você vai chegar pra morte e falar "peraí um instantinho, Dona Morte, que eu não entendi um negócio..."
- Se você pudesse negociar com a morte, o que você negociaria?
- Hum, sei lá, pedia  que não fosse assim tão vapt-vupt... aproveitar  tudo que não aproveitei, sei la´, viver  com intensidade...
- Taí uma das mentiras que os homens contam: "viver com intensidade" é o quê, você vai escalar o Everest, pular de pára-quedas e parapente, pilotar fórmula 1?
- Não. A montanha russa já ´tava bom.
- Não basta a  gente ir para a janela e ficar esperando a morte, numa boa cadeira de balanço, olhando o por-do-sol? 
-  E não "viver como se não houvesse amanhã".?
- isso é propaganda de cerveja. Não existe.
-  Mas o que você quer entender, afinal, antes de morrer?
- As eleições americanas.
- Haha, isso eu também. Todo mundo finge que entende.
- Por que proíbem a vaquejada e não proíbem o tal do MMA?
- Como é possível alguém tomar Pepsicola ou Gatorate?
-  Não tem gente que toma até xixi?
- As bombas atômicas, por que não desativam, se não vão usar?
- Por que rico nunca tá satisfeito com o que tem, e pobre vota num rico?
- Tanta pergunta! A Magra terá paciência?
- Ir ao Pão-de-Açúcar.  Gosto mais de avião  que teleférico..
- :Ah ela não vai esperar não.
- Coisa simples, comer uma fruta debaixo do pé..
- Essa é mole.
- Emagrecer...
- Essa é difícil. Muito difícil!
- Ufa!
- Hum, que listão, heim? Vai que ela  pede algo em troca, um toma-lá-da-cá, você acha que a Carrasca não pode querer sua alma?
- Não, a minha Morte há de ter caráter, essa  aí é o Diabo.
- Quem sabe não é o Diabo que vem te buscar?
-A morte são "os desígnios de Deus..." não do Diabo.
- Será? Faixa de Gaza, aquilo  é coisa de Deus?
- Ah chega ,Crê, fala sério, que conversa é essa?
- Quer saber,melhor morrer na santa  ignorância. 
- . E pedir pra Dona Morte dar um tempo...





Os demônios de Sidney Sheldon


Cremilda e Rosilda viajam algum tempo caladas...

- O que houve?
Sidney Sheldon (Author of If Tomorrow Comes)
- Por que está perguntando?
- Tá esquisita. Você não fica calada por mais de cinco minutos, Rosi...
- É, na verdade houve algo sim, eu  estava tomando coragem pra te contar...é que... eu caí em tentação.
- Não sou padre não, mas amiga mas é como se fosse, qual foi a tentação, afinal? Quebrou as finanças nas liquidações?
- Não. Antes fosse.
- Hum, já vi que se arrependeu...
- Sim.. Vamos lá (Pigarreando), lembra aquele entupimento da pia de que te falei?
- Ha-hã...
- O bombeiro apareceu.
- Normal...e daí?
- Cremilda, quando abri a porta, me vi diante de um deus grego, fiquei sem fôlego. Sabe, sabe... moreno de olhos dágua? Que encanador!
- Verdes?
- Verdíssimos!
 Já vi tudo, atacou o homem!
- Sim ... Quer dizer, não imediatamente.
- Sério? E eu estava brincando...
- Você já teve um impacto  emocional absurdo, diante de um homem?
- Que eu me lembre, foi quando vi Alan Delon aparecer em "O sol por testemunha"(1). Mas conta.
- Estava calor, primeiro ele tirou a camisa...
- Hum, golpe baixo...
- Não, ele foi educado, mandou um "se a senhora me permite"...
- Menos mal.
 - Depois, agachado, debaixo da pia, desenroscando as peças, aquele dorso dourado, aquele tanquinho, uma nuca linda, tenho um fraco por nucas perfeitas . 
- Quantos anos?
- Beirando os cinquenta, eu acho. 
- Uau, idade do lobo! 
- Amiga, em seguida foi uma sequência de panaquices minhas, toda hora eu  oferecia água, café, coitado, e tome água e café, e  papinho besta tipo "calor hoje, heim"? Ele só levantava os olhos e sorria. Mais idiota eu, impossível.
- Nessa hora até café combina com calor...  ficou enfeitiçada.
- Enfeitiçada é pouco, fiquei possuída! Como se meus demônios tivessem acordado, todos ao mesmo tempo!
- Demônios não, Rosi, vamos combinar, hormônios! Hormônios quando despertam ...
- Aí ele acabou o serviço, e levantou-se, alto, parecia mesmo saído de um livro do Sidney Sheldon, só que muito suado!
- Será que os homens de Sidney Sheldon ficam suados?
- Só sei que o cheiro era bom, a energia, o clima, sei lá, tudo conspirava,  ele percebeu, devo ter corado, ele disse com certa  malícia, me olhando com os olhos de água: "vejo que a senhora também está com muito calor",  eu pingava por todos os poros.
- E mais alguma coisa.
- Pois é, aí  eu fiz a pergunta fatal...
- Qual?
- "Você não quer tomar um banho?' Só que não foi num tom casual, foi...insinuante.
- Tsc,tsc,tsc. Eu que estou suando agora também.
- Aí ele concordou, peguei uma toalha, coração aos pulos, e ele entrou no box, aquela escultura ambulante...
- tsc, tsc,  tsc.E aí?
- E aí... E aí...
Bingo, você entrou também!
- Me aproximei. Ele me puxou com delicadeza, eu estava hipnotizada.
- ...
- Você está chocada, não está?  
- Hum... Acho que só um pouco besta
-  Pouco tempo, mas eterno enquanto durou
- Ufa!Que loucura...
- Aí acabou, fui pro quarto, troquei a roupa, melhor, vesti a razão, vexada, enfim, sem saber como iria olhar pra cara dele. Vi  pela fresta da porta ele colocar as calças, aí  reparei até que a cueca dele era meio furrequinha... que vergonha!
- Da cueca?.
- Não, de mim. Meu mundo caiu,  eu queria era voar pela janela!
- Entendo. Mas, quer saber, eu acho que eu nunca teria um momento assim. Meus hormônios não querem nada !  Mas vai.
- Quando voltei, ele estava de pé, na sala, sereno, com a valise na mão, cabelos molhados, lindo, esperando, como se nada tivesse acontecido. Tremia, deu até um branco na hora de teclar a  senha.
-Imagino.
- E aí eu virei pra ele, não sei se pra melhor ou prá pior e disse, sem olhar : "o que aconteceu aqui foi uma espécie de acidente, tá?". Ele respondeu na maior dignidade, "a senhora fica tranquila, tá tudo certo".
- Um cavalheiro esse deus grego.
- Fiquei com a sensação de ter traído a mim mesma.
- Vamos combinar que foi , digamos, certo atraso acumulado?
- Não sei. Depois que ele saiu, chorei. Chorei muito.
- Devia ter me ligado. Mas relaxa. Por que não perder o juízo uma vez na vida?
-  Achei que isso só acontecia em bestsellers...
-  Sinta-se então uma personagem de Sidney Sheldon! E o nome dele?
-  Ciro.
- Então não era um deus grego, era  persa!
- Agora vem o pior. Fiquei com o nome e aquele rosto martelando na cabeça, até dormir. De manhã, uma lembrança me acordou...
- E ...?
- Caiu a ficha. Tinha sido um aluno meu, Ciro, adolescente, já chamava atenção pela beleza, numa época em que  ainda era professora. O que é a vida, né?
- Pra você ver. Às vezes a vida dá banho nos romances.
-  E literalmente deu um banho em nós...
[Suspiros]
- Agora que te contei, me sinto aliviada.
- Sabe que de minha parte ...
- Eu sei.
- ...
- Que foi?
- Escuta,  você teria  aí o telefone dele?
- Mas o quê, como assim, Cremilda! Você...!?
- Sim.
 - Precisando de encanador? 
- Não,  é só pra ver como andam meus hormônios.
- Ó...
(baseado em fato real)
______________
1.     (1) Plein soleil (O sol por testemunha) é um filme franco-italiano de 1960, do gênero drama, dirigido por René Clément. O roteiro, escrito por Clément e por Paul Gégauff, foi baseado no livro O talentoso Mr. Ripley de Patricia Highsmith. e foi estrelado por Alain Delon (Wikipédia)
2.     A foto é do escritor norte-americano Sidney Sheldon

Detalhes tão pequenos...


Sábado. Boanerges e Cremilda ainda na cama. Cremilda se espreguiça e estica os dedos dos pés, para fora do lençol, bem na mira do olhar de Boanerges, que olha detidamente para os pés dela:

    -Benhê, posso te falar uma coisa? – pergunta
    -Pode – e deve!- responde Cremilda ainda bocejando.
    -É que, bem, você não vai se zangar?                                
    -Como posso saber? Você acha que vou me zangar?
    -Bom...Talvez.
    -Então fala logo, senão  vou me zangar !
    -É que...são seus pés...

    Cremilda encolhe os pés para dentro do lençol.

    -O que é que tem meus pés?
    -Teus pés são tão feinhos...

    Cremilda pára um pouco, contando nos dedos. Senta na cama, rápida e estática. Boanerges olha para ela, como que arrependido, e esperando uma reação.

    -São, deixa eu ver, trinta e oito anos, três meses e cinco dias, entre namoro e casamento, e agora que você vem com essa revelação!
    -Bem, pra dizer a verdade, eu sempre reparei. É que são...(cantarola) “detalhes tão pequenos de nós dois”...
    - Detalhes..., é?
    - Desculpa, benhê, já me arrependi , sabe aquela, “diga tudo agora ou cale-se para sempre?”- Eu devia ter me calado para sempre.
    - Devia mesmo, tem hora que o silêncio é de ouro! Podia acordar sem essa.
    - Estou sinceramente arrependido, Mildinha.
    - Trinta e oito anos, três meses e cinco dias...Sobre o que mais você mentiu esse tempo todo? Agora, vai, fala tudo de uma vez!
    -Ô Mildinha, não menti, omiti, não vê que se eu carreguei você todinha, como podia  carregar  sem os pés?
    -Se pudesse deixaria os meus pés, não é? Fala a verdade!
    -Como, Mildinha?
    -E pare de me chamar Mildinha!
    -Aconteceu, bem, me perdoa, Mil...Juro que vou olhar os seus pés com outros olhos, prometo.
    -Não precisa não. Dispenso esses seus outros olhos.

    Silêncio.Boanerges, desanimado, levanta e vai para o banheiro

    -Não vai tomar banho?- pergunta.
    -Não, obrigada, bom proveito .

    Ele entra no box da suíte assobiando ”Detalhes tão pequenos de nós dois”...De repente grita do box:

    -Mildinha, vai dizer que você não tem algum segredinho de uma coisa feia minha e que você nunca falou, vai? Fala a verdade. Barriga não vale. Foi adquirida.
    - ...
    -Pode falar, não me aborreço nem um pouco!
    -Ah não? Tem certeza?
    - Só se for agora!
    - Então, lá vai. Suas orelhas. Pronto, falei!
    - Minhas orelhas...orelhas? Ãnh, viu, nem ligo! ok. Um a um.
    - Um a um não, dois a dois. Um par de pés e um par de orelhas.

    Boanerges se enxuga e examina um tempo suas orelhas no espelho.

    -É, ta certo... mas, Mildinha, o que tem mesmo de errado com minhas orelhas?- grita do banheiro.
    -E, por acaso, te perguntei o que tem de errado com meus pés? Nem quero saber!
    - Tem razão. Faz o seguinte: Deixa pros próximos trinta e oito anos, né, bem? Até lá qualquer coisa é lucro!

    Cremilda se levanta e se dirige ao banheiro.

    -Mas o que é isso, Mildinha?
    - E o que é isso, Boa?
    - . . .
    Um pára surpreso diante do outro

    - Você vai viver de meias, agora, o tempo todo, querida?
    - E você, pretende sair por aí com esse turbante de toalha?

    O bode (ordenar)


    A cara de Rosilda não está nada boa hoje. Cremilda nota.
    - Hum, que foi...?
    - Bode.
    -Bode? Jogou no bode e perdeu...
    -Bode, fossa...dor de cotovelo.
    -Ih, quem?
    -Rubinho
    -Rubinho? Pensei que você tinha se conformado.
    -Não o bastante.
    -O que foi dessa vez?
    -Soube que já estão correndo os papéis do casório.,, com a outra!
    -Não seria melhor você nem saber, o que não se vê o coração não sente.
    - Ah difícil, com essa vida de Internet, quem pode evitar?
    -Pode sim, é só você não acessar certas páginas.
    -É, mas eu sou como aquele que disse "Ceda a tudo, menos às tentações"
    -Oscar Wilde¹, é a cara dele. Então se você cede, sorry, amiga, é porque quer sofrer.
    -É verdade, ele vai casar com a Barbie.
    -. Agora, pode ter certeza de uma coisa: os homens não casam.
    - Como assim?
    -Quem casa é a mulher. Eles simplesmente pedem arrego, desistem.
    -É uma teoria... aliás, nada original.
    - Tá bom.Você já viu alguma mulher vacilar diante de proposta de casamento? A mulher é uma aranha, arma a teia e aos poucos o cara acaba enredado.
    - Enredado porque está apaixonado, nem vem!
    - Nem sempre... Enredado pela idéia de chegar em casa, encontrar a Barbie cheirosinha, a casa limpinha, comidinha, tudo perfeito, tudo normal.
    - Paradoxo, não é a rotina é que acaba com tudo?
    - Com certeza! É o paradoxo perfeito! Mas é o casamento, a missão: a hora do ninho, da prole, de acumular herança, coisas do mundo estável. Agora, pra mulher é urgente, o nosso ciclo reprodutivo é limitado.
    - Puxa! E o amor nisso tudo?
    - Ah sim!O amor é pra dar graça a essa racionalidade.
    - Isso é  Cremilda, a cética.
    - Ninguém casa por paixão, casamento é a coisa mais desapaixonada que existe.
    - Menos. E acordar ao lado de quem se ama não é bom? Fala se não é!
    - Claro, mas lembrando a máxima do Vinícius: é infinito enquanto dura...
    - Uma mulher casada falando assim... 
    - Meu casamento é a crônica da morte anunciada, aliás como a maioria dos casamentos.
    -Não fala assim...é tão boa a sensação de que a gente encontrou a pessoa certa...
    - Esse é outro mito, a "´pessoa certa". A Barbie, por exemplo, é uma das milhares de possibilidades do Rubinho, mas ele não vai viver a vida toda procurando, vai? A fila anda!
    - Sei não... Às vezes um casamento dura a vida toda, com netos, bisnetos...
    - Já dizia um sábio, quando um casamento dura muitos anos é porque uma das partes desistiu. Olha prás estatísticas, mulher!
    - Credo, agourando, Cremilda?
    - Agourando não. Realista!
    - É realismo demais pra mim.
    - Se eu fosse você não saía da fila das possibilidades não, viu?
    - Que isso, Cremilda! Sugerindo o que, que eu seja a outra?
    - Bom, ou bem você desencana, ou vai fundo. O que não pode é amarrar o bode. Desamarra esse bode, mulher!
    - Falar é fácil.
    - Corra atrás da paixão. Essa sim deixa um rastro maravilhoso na sua vida, mesmo que você se despedace. Uma lembrança pra sua velhice, à la Hollywood.
    - Isso só me faz piorar, lembrança...
    - Não é aquela do álbum careta, das bodas, é a de dentro de você. Paixão, como diz Chico Buarque, não tem limite nem juízo...O que será, que será...
    - ...
    - Que foi?
    - Veja quem está falando!Faça o que digo... Taí, me diz um tantinho assim dessas coisas que você diz pra eu fazer e que você não faz. Palavras...
    - Ah, foi nos meus bons tempos, foi prá juntar  lembranças pra minha velhice. As: memórias de uma moça mal-comportada, rs
    - Quem diria! Então, pode começar.
    - Fica pra próxima.

    6.1.26

    A gravidade

    Cremilda e Rosilda voltando do trabalho.
    - É,amiga,menos um dia. 
    - Menos um dia..
    - Estava pensando...
    -Diga,Rosi
    - Que Newton, o físico, não precisava ver a maçã cair pra descobrir a gravidade.
    - Por que?
    - Bastava olhar os velhos.
    - E o que, que...? 
    - Uai, não cai tudo?
    - Mas é gradativo. A fruta cai de vez.
    - Só cai quando está madura, certo? 
    - Certo...
    -Sabe, acho que essa coisa da maçã do Newton é lenda. 
    - Por quê?
    - Ele só não queria melindrar os velhos.