Cremilda e Rosilda
DUAS PASSAGEIRAS atravessam todos os dias ,a ponte Rio-Niterói. Vividas,final de carreira, Cremilda, aquela que só acredita vendo, é casada e serventuária; Rosilda, a que vê tudo cor-de-rosa, bibliotecária e solteira. Falam de suas vidas, de personalidades, e fatos do mundo merecedores de tanta prosa. E haja viagem para tanta prosa! CONTEÚDO ADULTO.
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Só e bem acompanhada (ordenar)
Cremilda e Rosilda permanecem algum tempo sentadas em silêncio até que Cremilda olha para amiga. Rosilda fala.
- Eu sei que você está quieta assim porque não quer parecer invasiva, bisbilhoteira etc.- É...
- Já cansei de dizer que não vale isso entre a gente, até porque a gente lê o pensamento uma da outra. Pena que você é mulher, e eu sou hétera, senão seria meu marido ideal.
- Hum-hum, tá bom, então desistiu mesmo do casamento com Manolo.
- Desisti. Não fique com pena.
- Pena eu, que é isso! Parabéns!
- Sempre quis casar, você sabe, mas chega uma época da vida da gente que você não admite certas coisas.
- Tipo...
- No último jantar juntos, ele veio insinuando que eu podia largar meu emprego, trabalhar na farmácia com ele, que "isso de ir e voltar ao Rio todo dia atrapalha, que "quer coisa melhor que almoçar com a mulherzinha todos os dias, tirar uma sesta", entre outras coisas...?
- Xi!! Não está querendo pagar encargos sociais... O que você disse?
- Desmontei, mas fui curta e grossa: nem pensar!
- Essa é a Rosilda! E ele?
- Disse com jeitinho manso: calma, querida, nós vamos ter tempo para pensar a respeito.
- Hum... Sinal que ele não ia desistir do projeto tão cedo.
- Eu disse não, nós nem vamos pensar a esse respeito. Meu trabalho eu não largo!
- Absurdo, nos dias de hoje...e depois você ficar numa farmácia, cheirando a éter, não rola né?
- Aí ele ficou meio esquisito, me olhava com um sorriso meio irônico, fazendo agradinhos, com cara de "depois com jeitinho ela muda de idéia"...
- Sei como é. Conheço o tipo. O Boa se faz de vencido antes de ter vencido, quando quer muito uma coisa.
- Aí fomos prá nossas respectivas casas, e lá pela meia noite, dei um estalo tipo "sabe de uma coisa?" Liguei prá ele e terminei tudo.
- E a reação dele?
- Quê? Precisava ver! Nem aí , nem insistiu, nem nada, lamentou educadamente e, rapidinho, veio com aquela "amigos, então?"
- Esses homens... Acho que ele já estava percebendo que não ia dar certo.
- Claro, ia ser mais um contrato tipo"nós nos faremos companhia na velhice, certo?".
- Que bom, Rosilda, ainda bem, sem fossas, sem grilos...
- Continuo só, mas acho que até me vejo melhor só. Só e bem-acompanhada.
- Só e bem acompanhada, é isso aí.
- Se você prestar atenção, você nunca está só. Mesmo que esteja fisicamente só.
- Não vem com aquela história de está com Deus e tal...
- Não só.Veja bem, você quer estar no mundo, liga a tv, tem gente. Ou liga o computador, tem gente.
Desce o prédio, tem gente, vai à rua, tem gente, ao trabalho...Só no banheiro que não tem.
- Mas o amor como é que fica?
- O amor? Claro o amor faz falta, um abraço, um aperto ficam pro aniversário, pro Natal, os amigos, sobrinhos. Afinal o amor afinal você dedica a todos.
- Mas isso que você diz é a pura verdade, eu mesma com marido e filhos, quantas vezes me vejo e bem-acompanhada por mim mesma. E sabe que até gosto?
- Mas isso que você diz é a pura verdade, eu mesma com marido e filhos, quantas vezes me vejo e bem-acompanhada por mim mesma. E sabe que até gosto?
- Isso não quer dizer que a gente tem que virar uma carmelita.
- Não! Temos que cada vez estar no mundo, virtualmente ou em pessoa.
- Mesmo assim tenho que pensar melhor minhas perspectivas em relação aos homens...
- Rápido, heim, desculpe, aí.
- Eu sei... sabe, com toda sinceridade, isso já não me assusta nem um pouco.
- Com certeza, há muito mais coisas nesse mundo para nos assustar...
- E como!
- Não! Temos que cada vez estar no mundo, virtualmente ou em pessoa.
- Mesmo assim tenho que pensar melhor minhas perspectivas em relação aos homens...
- Rápido, heim, desculpe, aí.
- Eu sei... sabe, com toda sinceridade, isso já não me assusta nem um pouco.
- Com certeza, há muito mais coisas nesse mundo para nos assustar...
- E como!
Dá um tempo, Dona Morte
- O que está matutando tanto hoje, Cremilda?
- Fazendo as contas. com boa saúde, em circunstâncias normais, não tenho muito tempo pela frente.
- Não temos, mas qual a surpresa, ganhando uns 20,25 anos, já estamos no lucro.
- Será que vou embora sem ter feito e entendido coisas que queria?
- Hum ...não fazer coisas, tudo bem, mas entender...que diferença faz alguém morrer sem entender algo? Você vai chegar pra morte e falar "peraí um instantinho, Dona Morte, que eu não entendi um negócio..."
- Se você pudesse negociar com a morte, o que você negociaria?
- Hum, sei lá, pedia que não fosse assim tão vapt-vupt... aproveitar tudo que não aproveitei, sei la´, viver com intensidade...
- Taí uma das mentiras que os homens contam: "viver com intensidade" é o quê, você vai escalar o Everest, pular de pára-quedas e parapente, pilotar fórmula 1?
- Não. A montanha russa já ´tava bom.
- Não basta a gente ir para a janela e ficar esperando a morte, numa boa cadeira de balanço, olhando o por-do-sol?
- E não "viver como se não houvesse amanhã".?
- isso é propaganda de cerveja. Não existe.
- Mas o que você quer entender, afinal, antes de morrer?
- As eleições americanas.
- Haha, isso eu também. Todo mundo finge que entende.
- Por que proíbem a vaquejada e não proíbem o tal do MMA?
- Como é possível alguém tomar Pepsicola ou Gatorate?
- Não tem gente que toma até xixi?
- As bombas atômicas, por que não desativam, se não vão usar?
- Por que rico nunca tá satisfeito com o que tem, e pobre vota num rico?
- Tanta pergunta! A Magra terá paciência?
- Ir ao Pão-de-Açúcar. Gosto mais de avião que teleférico..
- Fazendo as contas. com boa saúde, em circunstâncias normais, não tenho muito tempo pela frente.
- Não temos, mas qual a surpresa, ganhando uns 20,25 anos, já estamos no lucro.
- Será que vou embora sem ter feito e entendido coisas que queria?
- Hum ...não fazer coisas, tudo bem, mas entender...que diferença faz alguém morrer sem entender algo? Você vai chegar pra morte e falar "peraí um instantinho, Dona Morte, que eu não entendi um negócio..."
- Se você pudesse negociar com a morte, o que você negociaria?
- Hum, sei lá, pedia que não fosse assim tão vapt-vupt... aproveitar tudo que não aproveitei, sei la´, viver com intensidade...
- Taí uma das mentiras que os homens contam: "viver com intensidade" é o quê, você vai escalar o Everest, pular de pára-quedas e parapente, pilotar fórmula 1?
- Não. A montanha russa já ´tava bom.
- Não basta a gente ir para a janela e ficar esperando a morte, numa boa cadeira de balanço, olhando o por-do-sol?
- E não "viver como se não houvesse amanhã".?
- isso é propaganda de cerveja. Não existe.
- Mas o que você quer entender, afinal, antes de morrer?
- As eleições americanas.
- Haha, isso eu também. Todo mundo finge que entende.
- Por que proíbem a vaquejada e não proíbem o tal do MMA?
- Como é possível alguém tomar Pepsicola ou Gatorate?
- Não tem gente que toma até xixi?
- As bombas atômicas, por que não desativam, se não vão usar?
- Por que rico nunca tá satisfeito com o que tem, e pobre vota num rico?
- Tanta pergunta! A Magra terá paciência?
- Ir ao Pão-de-Açúcar. Gosto mais de avião que teleférico..
- :Ah ela não vai esperar não.
- Coisa simples, comer uma fruta debaixo do pé..
- Essa é mole.
- Emagrecer...
- Coisa simples, comer uma fruta debaixo do pé..
- Essa é mole.
- Emagrecer...
- Essa é difícil. Muito difícil!
- Ufa!
- Hum, que listão, heim? Vai que ela pede algo em troca, um toma-lá-da-cá, você acha que a Carrasca não pode querer sua alma?
- Não, a minha Morte há de ter caráter, essa aí é o Diabo.
- Quem sabe não é o Diabo que vem te buscar?
-A morte são "os desígnios de Deus..." não do Diabo.
- Será? Faixa de Gaza, aquilo é coisa de Deus?
- Ah chega ,Crê, fala sério, que conversa é essa?
- Quer saber,melhor morrer na santa ignorância.
- Hum, que listão, heim? Vai que ela pede algo em troca, um toma-lá-da-cá, você acha que a Carrasca não pode querer sua alma?
- Não, a minha Morte há de ter caráter, essa aí é o Diabo.
- Quem sabe não é o Diabo que vem te buscar?
-A morte são "os desígnios de Deus..." não do Diabo.
- Será? Faixa de Gaza, aquilo é coisa de Deus?
- Ah chega ,Crê, fala sério, que conversa é essa?
- Quer saber,melhor morrer na santa ignorância.
- . E pedir pra Dona Morte dar um tempo...
Os demônios de Sidney Sheldon
Cremilda
e Rosilda viajam algum tempo caladas...
- O que
houve?
- Por que
está perguntando?
- Tá
esquisita. Você não fica calada por mais de cinco minutos,
Rosi...
- É, na
verdade houve algo sim, eu estava tomando coragem pra te contar...é
que... eu caí em tentação.
- Não sou
padre não, mas amiga mas é como se fosse, qual foi a tentação, afinal? Quebrou as
finanças nas liquidações?
- Não.
Antes fosse.
- Hum, já
vi que se arrependeu...
- Sim.. Vamos lá (Pigarreando), lembra aquele entupimento da pia de que
te falei?
-
Ha-hã...
- O
bombeiro apareceu.
- Normal...e daí?
-
Cremilda, quando abri a porta, me vi diante de um deus grego, fiquei sem fôlego.
Sabe, sabe... moreno de olhos dágua? Que encanador!
- Verdes?
- Verdíssimos!
- Já vi tudo, atacou o homem!
- Sim ...
Quer dizer, não imediatamente.
- Sério? E eu estava brincando...
- Você já
teve um impacto emocional absurdo, diante de um homem?
- Que eu
me lembre, foi quando vi Alan Delon aparecer em "O sol por
testemunha"(1). Mas conta.
- Estava
calor, primeiro ele tirou a camisa...
- Hum,
golpe baixo...
- Não,
ele foi educado, mandou um "se a senhora me permite"...
- Menos
mal.
-
Depois, agachado, debaixo da pia, desenroscando as peças, aquele dorso dourado,
aquele tanquinho, uma nuca linda, tenho um fraco por nucas perfeitas .
- Quantos
anos?
-
Beirando os cinquenta, eu acho.
- Uau,
idade do lobo!
- Amiga,
em seguida foi uma sequência de panaquices minhas, toda hora eu oferecia
água, café, coitado, e tome água e café, e papinho besta tipo "calor
hoje, heim"? Ele só levantava os olhos e sorria. Mais idiota eu,
impossível.
- Nessa
hora até café combina com calor... ficou enfeitiçada.
-
Enfeitiçada é pouco, fiquei possuída! Como se meus demônios
tivessem acordado, todos ao mesmo tempo!
-
Demônios não, Rosi, vamos combinar, hormônios! Hormônios
quando despertam ...
- Aí ele
acabou o serviço, e levantou-se, alto, parecia mesmo saído de um livro do
Sidney Sheldon, só que muito suado!
- Será
que os homens de Sidney Sheldon ficam suados?
- Só sei
que o cheiro era bom, a energia, o clima, sei lá, tudo conspirava, ele
percebeu, devo ter corado, ele disse com certa malícia, me olhando com os olhos de água: "vejo que a senhora
também está com muito calor", eu pingava por
todos os poros.
- E mais
alguma coisa.
- Pois é,
aí eu fiz a pergunta fatal...
- Qual?
-
"Você não quer tomar um banho?' Só que não foi num tom casual, foi...insinuante.
-
Tsc,tsc,tsc. Eu que estou suando agora também.
- Aí ele concordou, peguei uma toalha, coração aos pulos, e ele entrou no box, aquela
escultura ambulante...
- tsc, tsc, tsc.E aí?
- E aí... E aí...
- Bingo,
você entrou também!
- Me aproximei. Ele me puxou com delicadeza, eu estava hipnotizada.
- ...
- Você
está chocada, não está?
- Hum... Acho que só um pouco besta!
- Pouco tempo, mas eterno enquanto durou
- Ufa!Que
loucura...
- Aí
acabou, fui pro quarto, troquei a roupa, melhor, vesti a razão,
vexada, enfim, sem saber como iria olhar pra cara dele. Vi pela
fresta da porta ele colocar as calças, aí reparei até que a cueca dele
era meio furrequinha... que vergonha!
- Da
cueca?.
- Não, de
mim. Meu mundo caiu, eu queria era voar pela janela!
- Entendo. Mas, quer saber, eu acho que eu nunca teria um momento assim.
Meus hormônios não querem nada ! Mas vai.
- Quando
voltei, ele estava de pé, na sala, sereno, com a valise na mão, cabelos
molhados, lindo, esperando, como se nada tivesse acontecido. Tremia, deu até um branco na hora de teclar a senha.
-Imagino.
- E aí eu
virei pra ele, não sei se pra melhor ou prá pior e disse, sem olhar : "o
que aconteceu aqui foi uma espécie de acidente, tá?". Ele respondeu na
maior dignidade, "a senhora fica tranquila, tá tudo certo".
- Um
cavalheiro esse deus grego.
- Fiquei
com a sensação de ter traído a mim mesma.
- Vamos
combinar que foi , digamos, certo atraso acumulado?
- Não sei. Depois que ele saiu, chorei.
Chorei muito.
- Devia
ter me ligado. Mas relaxa. Por que não perder o juízo uma vez na vida?
-
Achei que isso só acontecia em bestsellers...
- Sinta-se então
uma personagem de Sidney Sheldon! E o nome dele?
- Ciro.
- Então
não era um deus grego, era persa!
- Agora
vem o pior. Fiquei com o nome e aquele rosto martelando na cabeça, até dormir.
De manhã, uma lembrança me acordou...
- E ...?
- Caiu a
ficha. Tinha sido um aluno meu, Ciro, adolescente, já chamava atenção pela
beleza, numa época em que ainda era professora. O que
é a vida, né?
- Pra você ver. Às vezes a vida dá banho nos
romances.
- E literalmente deu um banho em nós...
[Suspiros]
-
Agora que te contei, me sinto aliviada.
- Sabe
que de minha parte ...
- Eu sei.
- ...
- Que foi?
- Escuta, você teria aí o telefone dele?
- Mas o quê, como assim, Cremilda! Você...!?
- Sim.
- Precisando de encanador?
- Não, é só pra ver como andam meus
hormônios.
- Ó...
(baseado em fato real)
______________
1. (1) Plein
soleil (O sol por testemunha) é um filme franco-italiano de 1960, do
gênero drama, dirigido por René Clément. O roteiro, escrito por Clément e por
Paul Gégauff, foi baseado no livro O talentoso Mr. Ripley de Patricia
Highsmith. e foi estrelado por Alain Delon (Wikipédia)
2.
A foto é do escritor norte-americano Sidney Sheldon
Detalhes tão pequenos...
Sábado. Boanerges e Cremilda ainda na cama. Cremilda se espreguiça e estica os dedos dos pés, para fora do lençol, bem na mira do olhar de Boanerges, que olha detidamente para os pés dela:
-Pode – e deve!- responde Cremilda ainda bocejando.
-É que, bem, você não vai se zangar?
-Como posso saber? Você acha que vou me zangar?
-Bom...Talvez.
-Então fala logo, senão vou me zangar !
-É que...são seus pés...
Cremilda encolhe os pés para dentro do lençol.
-O que é que tem meus pés?
-Teus pés são tão feinhos...
Cremilda pára um pouco, contando nos dedos. Senta na cama, rápida e estática. Boanerges olha para ela, como que arrependido, e esperando uma reação.
-São, deixa eu ver, trinta e oito anos, três meses e cinco dias, entre namoro e casamento, e agora que você vem com essa revelação!
-Bem, pra dizer a verdade, eu sempre reparei. É que são...(cantarola) “detalhes tão pequenos de nós dois”...
- Detalhes..., é?
- Desculpa, benhê, já me arrependi , sabe aquela, “diga tudo agora ou cale-se para sempre?”- Eu devia ter me calado para sempre.
- Devia mesmo, tem hora que o silêncio é de ouro! Podia acordar sem essa.
- Estou sinceramente arrependido, Mildinha.
- Trinta e oito anos, três meses e cinco dias...Sobre o que mais você mentiu esse tempo todo? Agora, vai, fala tudo de uma vez!
-Ô Mildinha, não menti, omiti, não vê que se eu carreguei você todinha, como podia carregar sem os pés?
-Se pudesse deixaria os meus pés, não é? Fala a verdade!
-Como, Mildinha?
-E pare de me chamar Mildinha!
-Aconteceu, bem, me perdoa, Mil...Juro que vou olhar os seus pés com outros olhos, prometo.
-Não precisa não. Dispenso esses seus outros olhos.
Silêncio.Boanerges, desanimado, levanta e vai para o banheiro
-Não vai tomar banho?- pergunta.
-Não, obrigada, bom proveito .
Ele entra no box da suíte assobiando ”Detalhes tão pequenos de nós dois”...De repente grita do box:
-Mildinha, vai dizer que você não tem algum segredinho de uma coisa feia minha e que você nunca falou, vai? Fala a verdade. Barriga não vale. Foi adquirida.
- ...
-Pode falar, não me aborreço nem um pouco!
-Ah não? Tem certeza?
- Só se for agora!
- Então, lá vai. Suas orelhas. Pronto, falei!
- Minhas orelhas...orelhas? Ãnh, viu, nem ligo! ok. Um a um.
- Um a um não, dois a dois. Um par de pés e um par de orelhas.
Boanerges se enxuga e examina um tempo suas orelhas no espelho.
-É, ta certo... mas, Mildinha, o que tem mesmo de errado com minhas orelhas?- grita do banheiro.
-E, por acaso, te perguntei o que tem de errado com meus pés? Nem quero saber!
- Tem razão. Faz o seguinte: Deixa pros próximos trinta e oito anos, né, bem? Até lá qualquer coisa é lucro!
Cremilda se levanta e se dirige ao banheiro.
-Mas o que é isso, Mildinha?
- E o que é isso, Boa?
- . . .
Um pára surpreso diante do outro
- Você vai viver de meias, agora, o tempo todo, querida?
- E você, pretende sair por aí com esse turbante de toalha?
O bode (ordenar)

A cara de Rosilda não está nada boa hoje. Cremilda nota.
- Hum, que foi...?
- Bode.
-Bode? Jogou no bode e perdeu...
-Bode, fossa...dor de cotovelo.
-Ih, quem?
-Rubinho
-Rubinho? Pensei que você tinha se conformado.
-Não o bastante.
-O que foi dessa vez?
-Soube que já estão correndo os papéis do casório.,, com a outra!
-Não seria melhor você nem saber, o que não se vê o coração não sente.
- Ah difícil, com essa vida de Internet, quem pode evitar?
-Pode sim, é só você não acessar certas páginas.
-É, mas eu sou como aquele que disse "Ceda a tudo, menos às tentações"
-Oscar Wilde¹, é a cara dele. Então se você cede, sorry, amiga, é porque quer sofrer.
-É verdade, ele vai casar com a Barbie.
-. Agora, pode ter certeza de uma coisa: os homens não casam.
- Como assim?
-Quem casa é a mulher. Eles simplesmente pedem arrego, desistem.
-É uma teoria... aliás, nada original.
- Tá bom.Você já viu alguma mulher vacilar diante de proposta de casamento? A mulher é uma aranha, arma a teia e aos poucos o cara acaba enredado.
- Enredado porque está apaixonado, nem vem!
- Nem sempre... Enredado pela idéia de chegar em casa, encontrar a Barbie cheirosinha, a casa limpinha, comidinha, tudo perfeito, tudo normal.
- Hum, que foi...?
- Bode.
-Bode? Jogou no bode e perdeu...
-Bode, fossa...dor de cotovelo.
-Ih, quem?
-Rubinho
-Rubinho? Pensei que você tinha se conformado.
-Não o bastante.
-O que foi dessa vez?
-Soube que já estão correndo os papéis do casório.,, com a outra!
-Não seria melhor você nem saber, o que não se vê o coração não sente.
- Ah difícil, com essa vida de Internet, quem pode evitar?
-Pode sim, é só você não acessar certas páginas.
-É, mas eu sou como aquele que disse "Ceda a tudo, menos às tentações"
-Oscar Wilde¹, é a cara dele. Então se você cede, sorry, amiga, é porque quer sofrer.
-É verdade, ele vai casar com a Barbie.
-. Agora, pode ter certeza de uma coisa: os homens não casam.
- Como assim?
-Quem casa é a mulher. Eles simplesmente pedem arrego, desistem.
-É uma teoria... aliás, nada original.
- Tá bom.Você já viu alguma mulher vacilar diante de proposta de casamento? A mulher é uma aranha, arma a teia e aos poucos o cara acaba enredado.
- Enredado porque está apaixonado, nem vem!
- Nem sempre... Enredado pela idéia de chegar em casa, encontrar a Barbie cheirosinha, a casa limpinha, comidinha, tudo perfeito, tudo normal.
- Paradoxo, não é a rotina é que acaba com tudo?
- Com certeza! É o paradoxo perfeito! Mas é o casamento, a missão: a hora do ninho, da prole, de acumular herança, coisas do mundo estável. Agora, pra mulher é urgente, o nosso ciclo reprodutivo é limitado.
- Puxa! E o amor nisso tudo?
- Ah sim!O amor é pra dar graça a essa racionalidade.
- Com certeza! É o paradoxo perfeito! Mas é o casamento, a missão: a hora do ninho, da prole, de acumular herança, coisas do mundo estável. Agora, pra mulher é urgente, o nosso ciclo reprodutivo é limitado.
- Puxa! E o amor nisso tudo?
- Ah sim!O amor é pra dar graça a essa racionalidade.
- Isso é Cremilda, a cética.
- Ninguém casa por paixão, casamento é a coisa mais desapaixonada que existe.
- Menos. E acordar ao lado de quem se ama não é bom? Fala se não é!
- Claro, mas lembrando a máxima do Vinícius: é infinito enquanto dura...
- Uma mulher casada falando assim...
- Meu casamento é a crônica da morte anunciada, aliás como a maioria dos casamentos.
-Não fala assim...é tão boa a sensação de que a gente encontrou a pessoa certa...
- Esse é outro mito, a "´pessoa certa". A Barbie, por exemplo, é uma das milhares de possibilidades do Rubinho, mas ele não vai viver a vida toda procurando, vai? A fila anda!
- Sei não... Às vezes um casamento dura a vida toda, com netos, bisnetos...
- Já dizia um sábio, quando um casamento dura muitos anos é porque uma das partes desistiu. Olha prás estatísticas, mulher!
- Credo, agourando, Cremilda?
- Agourando não. Realista!
- É realismo demais pra mim.
- Se eu fosse você não saía da fila das possibilidades não, viu?
- Que isso, Cremilda! Sugerindo o que, que eu seja a outra?
- Bom, ou bem você desencana, ou vai fundo. O que não pode é amarrar o bode. Desamarra esse bode, mulher!
- Falar é fácil.
- Corra atrás da paixão. Essa sim deixa um rastro maravilhoso na sua vida, mesmo que você se despedace. Uma lembrança pra sua velhice, à la Hollywood.
- Isso só me faz piorar, lembrança...
- Não é aquela do álbum careta, das bodas, é a de dentro de você. Paixão, como diz Chico Buarque, não tem limite nem juízo...O que será, que será...
- ...
- Que foi?
- Veja quem está falando!Faça o que digo... Taí, me diz um tantinho assim dessas coisas que você diz pra eu fazer e que você não faz. Palavras...
- Ah, foi nos meus bons tempos, foi prá juntar lembranças pra minha velhice. As: memórias de uma moça mal-comportada, rs
- Quem diria! Então, pode começar.
- Fica pra próxima.
- Menos. E acordar ao lado de quem se ama não é bom? Fala se não é!
- Claro, mas lembrando a máxima do Vinícius: é infinito enquanto dura...
- Uma mulher casada falando assim...
- Meu casamento é a crônica da morte anunciada, aliás como a maioria dos casamentos.
-Não fala assim...é tão boa a sensação de que a gente encontrou a pessoa certa...
- Esse é outro mito, a "´pessoa certa". A Barbie, por exemplo, é uma das milhares de possibilidades do Rubinho, mas ele não vai viver a vida toda procurando, vai? A fila anda!
- Sei não... Às vezes um casamento dura a vida toda, com netos, bisnetos...
- Já dizia um sábio, quando um casamento dura muitos anos é porque uma das partes desistiu. Olha prás estatísticas, mulher!
- Credo, agourando, Cremilda?
- Agourando não. Realista!
- É realismo demais pra mim.
- Se eu fosse você não saía da fila das possibilidades não, viu?
- Que isso, Cremilda! Sugerindo o que, que eu seja a outra?
- Bom, ou bem você desencana, ou vai fundo. O que não pode é amarrar o bode. Desamarra esse bode, mulher!
- Falar é fácil.
- Corra atrás da paixão. Essa sim deixa um rastro maravilhoso na sua vida, mesmo que você se despedace. Uma lembrança pra sua velhice, à la Hollywood.
- Isso só me faz piorar, lembrança...
- Não é aquela do álbum careta, das bodas, é a de dentro de você. Paixão, como diz Chico Buarque, não tem limite nem juízo...O que será, que será...
- ...
- Que foi?
- Veja quem está falando!Faça o que digo... Taí, me diz um tantinho assim dessas coisas que você diz pra eu fazer e que você não faz. Palavras...
- Ah, foi nos meus bons tempos, foi prá juntar lembranças pra minha velhice. As: memórias de uma moça mal-comportada, rs
- Quem diria! Então, pode começar.
- Fica pra próxima.
6.1.26
A gravidade
Cremilda e Rosilda voltando do trabalho.
- É,amiga,menos um dia.
- Menos um dia..
- Estava pensando...
-Diga,Rosi
- Que Newton, o físico, não precisava ver a maçã cair pra descobrir a gravidade.
- Por que?
- Bastava olhar os velhos.
- E o que, que...?
- Uai, não cai tudo?
- Mas é gradativo. A fruta cai de vez.
- Só cai quando está madura, certo?
- Certo...
-Sabe, acho que essa coisa da maçã do Newton é lenda.
- Por quê?
- Ele só não queria melindrar os velhos.
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